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Desmistificando o Jazz...

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Esse pequeno artigo aflorou depois de um breve diálogo que ouvi, recentemente, em uma cafeteria, coencidentemente americana, entre dois jovens e que me fez lembrar da emoção que senti quando me deparei com meu primeiro Jazz aos 15 anos.

No som ambiente da cafeteria rolava um Jazz bem tradicional – para ser mais preciso, um típico New Orleans Jazz de Sydney Bechet – quando um rapaz, que aguardava sua vez de ser atendido pelo caixa, comentou com um outro rapaz, que o acompanhava, que o termo Jazz originalmente era grafado com dois esses (Jass) e que a pronúncia também era diferente (Jass, lia-se Jass com “a” e; Jazz, posteriormente adotado, lia-se com “e”, “Jezz”). O rapaz ouvinte fez uma careta jocosa e disse que era admirável o conhecimento do primeiro. Verdade seja dita, o primeiro rapaz estava parcialmente correto, pois durante um curto espaço de tempo (1916 – 1918) uma das inúmeras bandas de Jazz da época, Original Dixieland Jass Band, usava o termo Jass, alterado em 1918 para Jazz.

 

O que é Jazz?

Muito frequentemente ouço a frase: “O Jazz é música de elite”. Estranhamente nunca ouvi a mesma referência para outros estilos americanos que beberam na mesma fonte e, mais surpreendetemente ainda, é que durante muitas décadas o Jazz esteve vinculado as classes mais baixas e aos negros americanos.

O Jazz nasceu e cresceu nos EUA, principalmente na região de New Orleans e no Delta do Mississipi, tendo na cultura popular negra, leia-se escravos, seu desenvolvimento mais representativo. A mistura das tradições musicais tribais afro americanas e européias aprendidas nas cozinhas das casas da classe média americana pelos negros e o incremento da cultura creole, utilizando os instrumentos mais comuns e acessíveis à época.

Teoricamente, para se fazer Jazz qualquer instrumento para a sua execução é aceito, mas originalmente, os instrumentos utilizados na execução do Jazz eram aqueles das bandas marciais, ou seja, madeiras (clarinete e flauta), metais (piston), caixa e prato, além do banjo, da gaita e da Wash Machine que, como o próprio nome diz, servia para lavar roupa e, se você nunca viu um, olhe para as ondulações do tanque de lavar roupa da sua casa e você entenderá o princípio básico do instrumento.

Origens

No início do século XIX milhares de africanos foram enviados, como escravos, para o sul dos estados unidos. Na bagagem eles trouxeram as tradições musicais tribais.

Diferentemente da escravidão no Brasil, onde os escravos de mesmas tribos eram colocados juntos nas senzalas, na América, os escravos eram separados para evitar revoltas e, portanto, com o passar do anos suas tradições eram diluídas sobre a influência branca. Os canticos, nas plantações americanas, eram incentivados pois acreditava-se que esses canticos mantinham a moral elevada dos trabalhadores escravos. O padrão polirrítmico desses canticos de padrão “Pergunta e Resposta”, encontrados também no Jazz, só não existindo o conceito harmônico utilizado na musica européia. O ritmo da fala e o sistema tonal utilizados nos canticos originaram às “Blue Notes” que mais tarde foram incorporadas ao Jazz.

Um número crescente de escravos negros aprendiam instrumentos ocidentais, principalmente o violino e o piano, aprendendo também a tocar as músicas de dança européia. O valor de mercado para esse tipo de escravo era bem alto, pois além de motivar os demais escravos na lida, alegravam os chefes de plantações e os donos das terras e suas famílias. Em seus poucos momentos de descanso, esses escravos parodiavam a música e a dança européia em suas próprias músicas/canticos e em suas danças.

Por volta de 1849, os “Minstrel Shows” eram muito populares no sul dos estados unidos. O Minstrel Show é mais conhecido como Blackface – Brancos que pintavam a cara com carvão e tocavam e cantavam paródias – e trouxe a fusão da música tocada pelos negros, que já era combinada entre a música afro e européia, juntamente com a música latina, especificamente a música mexicana. Louis Moreau Gottschalk foi o maior representante deste movimento e sua música Pasquinade de 1860 antecipou o que viria a ser conhecido com Ragtime.

Outra forte influência vinha das igrejas. Os hinos que os negros aprendiam nas igrejas eram adaptados em spirituals que, mesmo não tendo documentação comprobatória, influenciaram na criação do Blues que é o estilo contemporâneo ao Negro Spirituals.

Esse calderão de influências – Canticos tribais, Música européia, Hinos, Negro Spirituals – criaram o Blues. A aglutinação de outras influências sobre o Blues, principalmente pela cultura Creole, geraram o que mais tarde ficou conhecido como Jazz.

Os estilos de Jazz

Não vou detalhar cada gênero e estilos adotados em cada época de forma detalhada, pois o objetivo aqui é apenas apresentar os pontos principais de cada estilo, bem como, os principais representantes de cada estilo. Também não vou considerar os subgêneros que muitas vezes representam apenas alguma característica específica ou uma pseudo modernização mercadológica de um estilo. Tenho certeza que você se sentirá confortável ao ouvir um Ska Jazz ou um Asian Jazz – subgêneros do Post Modern Jazz, que em minha opinião já é um subgênero do Fusion – e entender porque o chamaram assim. Bom, vamos lá....

Ragtime 1890

O Ragtime possui as características da música para piano do século XIX, utilizando a forma típica do minueto. O maior representante do Ragtime foi Scott Joplin, mas outros pianistas eram Tom Turpim, James Scott, Eubie Blake e Jelly Roll Morton que depois encorporou o New Orleans Jazz ao seu estilo.

New Orleans Jazz 1900

New Orleans é a capital do Jazz. Apesar de o Jazz não ter nascido só em New Orleans foi lá que o Jazz se desenvolveu e muito por causa das características da cidade. Em New Orleans se ouvia de tudo – ópera francesa e italiana, folk, dança espanhola, marcha, música cubana, blues, spirituals, shouts, música napolitana e, claro, ragtime.

O New Orleans Jazz se caracteriza por três linhas melódicas que se contraponteiam. O instrumento líder é o piston, o trombone faz o contraponto e a clarineta ornamenta. Os representantes são: Sidney Bechet (ouçam que o cara é fera), Barney Bigard, Kid Ory e Jelly Roll Morton

Dixieland - 1900

O jazz produzido pelos brancos apesar de menos expressivo que o dos negros, tecnicamente era mais bem acabado. As melodias eram menos rebuscadas, as harmonias mais limpas e a sonoridade menos original. Foi através do Dixieland que o Jazz chegou a New York e popularizou o estilo que depois ficou conhecido como Jazz. Os representantes do Dixieland foram: The Original Dixieland Jazz Band que gravou o primeiro disco de Jazz em 1917 e a New Orleans Rhythm Kings.

Chicago Jazz 1920

Os grandes músicos e bandas de Jazz de New Orleans migraram para Chicago pela efervecência cultural e pelas possibilidades profissionais que se apresentavam melhores, naquela época, que em New Orleans.

Foi em Chicago que ocorreram as primeiras gravações realmente inovadoras de Jazz . entre os anos de 1925 à 1929 . Louis Armstrong, talvez seja um dos maiores representantes deste período do Chicago Jazz, junto com Cab Calloway, Johnny Dodds, Bix Beiderbecke e Roy Palmer.

A evolução do Jazz em Chicago fez nascer o estilo mais marcante e difundido de Jazz, o Swing.

Swing 1930

Como o próprio nome sugere, o Swing se caracteriza pelo balanço, ou tecnicamente, o deslocamento do acento nos tempos fracos do compasso, um rítmo bem marcado e o ataque (hot attack) preciso nas notas. A característica mais marcante do Jazz dessa época é que as pequenas bandas deram lugar as grande orquestras (Big Bands).

Historicamente, o Swing concretizou-se como um estilo próprio e começou a se tornar conhecido nos primeiros anos após a grande depressão america e se extendeu até o fnial da Segunda Grande Gerra, portanto entre 1932 e 1943.

Popularizou-se mundialmente muito auxiliado pelos filmes produzidos por Hollywood no período da segunda guerra.

Para entender o Swing ouça: O pianista (mestre e inclassificável) Duke Ellington, Benny Goodman, Artie Shaw, Tommy Dorsey, Ben Pollack, Fletcher Henderson, Louis Armstrong (considerado um dos mestres dos estilos Chicago e Swing e que tocou na orquestra de Henderson) o fantástico Count Basie, os saxofonistas Coleman Hawkins e Lester Young (The President, o preferido entre os preferidos) e Glenn Miller, que ficou mais conhecido por suas músicas levemente açucaradas para filmes e, principalmente, depois que o avião que levava sua Big Band para apresentações para militares em bases americanas na Europa caiu, matando o próprio Miller e sua orquestra. Na área do canto, os três maiores representantes são: Billie Holliday, Frank Sinatra e Ella Fitzgerald – considerados, até hoje, os maiores cantores americanos de todos os tempos. Sobre Billie e Lester escreverei texto específico (prometo!).

Bebop Jazz 1940

O Bebop foi a contraposição dos clichês e da previsibilidade que se tornou o Swing. Nascido nas sessões de improviso (Jam Sessions), onde os músicos podiam experimentar novos acordes e improvisos mais livres e rápidos.

Os Boppers, como eram conhecidos os músicos adeptos dessas Jams, que tinham como ídolos Hawkins, Young e Art Tatum, começaram a criar um novo estílo músical, em que o piano e o baixo tinham maior liberdade criativa, velocidade e habilidade técnica era uma exigência. Por ter um alto grau de exigência técnica, o Bebop é considerado o estílo mais adorado pelos instrumentistas. Muitos acreditam que o Jazz tornou-se uma música de elite por conta da complexidade de se entender o Bebop e a maioria dos estilos que vieram depois.

Os maiores representantes do Bebop são: Dizzy Gillespie e Charlie Parker – considerado os fundadores do Bebop - Thelonious Monk, Miles Davis e John Coltrane, Kenny Clarke, Max Roach, Charlie Christian, Milt Jackson, Bud Powell, J. J. Johnson e Miles Davis (fundador e inspirador de quase todos os futuros estílos de Jazz).

Cool Jazz ou West Coast Jazz 1950

O Cool foi sempre criticado pelos historiadores de Jazz, muitos deles não o consideram um estilo! Tecnicamente, o Cool é o resgate conservador do Jazz, apesar de ser uma evolução natural do Bebop, trazia fortes elementos do Jazz pré-Bebop. Ao contrário do virtuosismo do Bebop, o Cool apresenta uma estrutura mais relaxada e dançante (daí algum historiadores entenderem que o Cool Jazz é apenas um resgate do Swing).

O The Birth Of The Cool Nonet, liderados por Miles Davis, fundamentou as bases do Cool e apresentou ao público um novo estílo de se fazer Jazz. Os mais relevantes deste período são: Miles Davis (pai do estílo), John Coltrane, Lee Konitz, Lennie Tristano, Gerry Mulligan, Billy Bauer e Stan Getz

Latin e Brazilian Jazz 1950

Como o próprio nome sugere, a influência latina e caribenha no Jazz gerou um tipo específico de Jazz, facilmente identificável, que se caracteriza pela levada latina. Os melhores representantes desse estílo são: Dizzy Gillespie, Tom Jobim, Chucho Valdez, Laurindo de Almeida, Charlie Byrd e João Donato

Hardbop Jazz 1950

Durante um pequeno período o Hardbop era conhecido como Funk Jazz, principalmente pelos rítmos ardentes, com melodia simples e solos cheios de soul. Tanto o Soul Jazz, quanto o Hardbop tem características semenhantes e intercaláveis durante os anos subsequentes. O Hardbop pode ser considerado uma evolução do Cool ou diretamente do Bebop por alguns historiadores. Os maiores representantes deste estílo são: Thelonious Monk, Sonny Rollins, Horace Silver, Art Blakey, Clifford Brown, Chet Baker, Miles Davis e John Coltrane

Soul Jazz 1960

Também apelidado de Funk Jazz como seu irmão Hardbop, o Soul Jazz se desenvolveu a partir do Hardbop sob influência do Blues, Gospel e do R&B. Alguns especialistas diferenciam o Soul Jazz e o Hardbop pela utilização ou não do órgão Hammond, mas a grande diferença é o ritmo, marcante e melódico!

Uma das músicas mais conhecidas e que serve como referência do estílo é the in Crowd, de 1965. Os representantes deste estílo são: Bill Doggett, Richard Holmes, Hank Crawford (fantastic saxofonista), Julian "Cannonball" Adderley conhecido como um dos maiores saxofonistas alto da História do Jazz, Jimmy MCGriff e John “Hammond” Smith. Na década de 1990, jovens músicos como Joshua Redman e James Carter tornaram-se ótimos representantes do Soul Jazz dos anos 60.

Free Jazz 1960

Free Jazz é uma corrente que nasceu nos anos 50 e se desenvolveu durante os anos 60. O free jazz configurou-se logo como um 'não estilo', uma espécie de utopia que rejeita qualquer classificação, como o próprio nome sugere. É de difícil entendimento para os “não iniciados”. Boas referências são: Cecil Taylor, Ornette Coleman, John Coltrane, Miles Davis e Sun Ra.

Jazz Fusion 1970

O Fusion também é conhecido como Jazz Rock, tem como principal característica a mistura com ritmos e timbres ligados ao rock. No Fusion, a guitarra tem papel importante e é muito utilizada como instrumento solístico principal, assim como os sons sintetizados dos teclados. O nascimento do Jazz Fusion deve-se, principalmente, ao fato de muitos músicos de Jazz migrarem para o rock alternativo. a década Ae 1970 caracteriza-se como a época do esquecimento do Jazz de vanguarda. Os principais representantes do Jazz Fusion são: Miles Davis, Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Spyro Gyra e Yellow Jackets

Post Bop Jazz 1980/90

Durante a década de 1980 um jovem músico americano (Wynton Marsalis) liderou a retomada do Jazz de Vanguarda. A utilização de elementos do Hardbop com pitadas de R&B fez aparecer uma nova leva de bons instrumentistas com uma pegada vanguardista de Jazz. O Post Bop Jazz propôs o caminho inverso dos músicos instrumentistas e dos vocalistas, que fugindo das limitações do mercado fonográfico da época que era dirigido a uma música instrumental com forte presença sentimental, de fácil assimilação, com clichês definidos nos solos e com uma grande limitação técnica na execução. Os maiores representantes deste período são: Wynton e Brandford Marsalis, Brecker Brothers (dos fantásticos Andy e Michael Brecher), Eliane Elias (excelente pianista que infelizmente não faz sucesso no Brasil), Bob Mintzer (Saxofonista do Yellow Jackets), Joshua Redman e James Carter

Smooth Jazz 1990

O Smooth Jazz é um estilo de Jazz formatado para tocar nas rádios. Sua principal característica é a economia nos solos e improvisos, com uma forte influência do R&B. O esboço do Smooth começou na década de 1980 com Grover Washington Jr e Kenny G e teve seu formato definido na década de 1990 quando os músicos de Jazz adaptaram suas composições para o formato utilizado nas rádios. Os principais representantes são: Najee, George Howard (clone de Grover), Dave Koz e Richard Elliot (limitadíssimo instrumentista de R&B), além, é claro de Kenny G e Grover Washington Jr. Alguns críticos incluem Paul Horn e Paul Winter nesta categoria, outros incluem, juntamente com Enia na categoria New Age, que efetivamente não é Jazz.

New Jazz 2000

No início de 2000 uma nova onda de músicos de Jazz, principalmente europeus, começou a ganhar certa notoriedade no mercado fonográfico. Esses músicos resgataram as várias escolas de Jazz e começam a propor um novo caminho para a evolução do Jazz. Os maiores representantes deste novo movimento são: Jamie Cullum, Amy Winehouse e Michael Buble.

E agora? O que ouvir?

Existem uma série de listas sobre albuns de Jazz: na internet, livros de indicação (o Pinguin é o melhor), revistas especializadas etc. Em todas elas existem uma série de variações, mas alguns discos são sempre cravados como referência.

Como primeira sugestão, ouça os principais representantes de cada estilo. Se você tiver chance, assista a ótima série apresentada pelo Wynton Marsalis sobre as origens do Jazz – passou na Globo a alguns anos atrás e está disponível em DVD.

Aqui vai uma listinha básica, mas se vale uma recomendação, ouça cada um dos principais representantes de cada fase:

John Coltrane - A Love Supreme (foi o primeiro disco de Jazz que ouvi em minha vida)

Lester Young - The Complete Lester Young Studio Sessions on Verve (grande caixa com várias das melhores gravações realizadas pelo gênio – meu preferido)

Miles Davis - Kind Of Blue

he Dave Brubeck Quartet - Time Out

Sonny Rollins - Saxophone Colossus

John Coltrane - Giant Steps

Bill Evans Trio - Waltz for Debby

Louis Armstrong - 25 Greatest Hot Fives & Sevens

John Coltrane - Blue Train

Stan Getz & Joao Gilberto - Getz/Gilberto

Charlie Parker - The Best of The Savoy & Dial

Chet Baker - My Funny Valentine

Miles Davis - Round About Midnight

Billie Holiday - Lady Day

Billie Holiday - All or Nothing at All

Chick Corea - Return to Forever

Dexter Gordon - Go!

Ella Fitzgerald & Louis Armstrong - Ella & Louis

Benny Goodman - Carnegie Hall Jazz Concert [2CD]

Ella Fitzgerald - The Best of the Song Books





Last Updated on Thursday, 22 April 2010 14:52
 
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