
Na época em que não existiam as blitz do bafômetro uma atmosfera de irresponsabilidade pairava pelo ar dos botecos do dia a dia, e isso gerava certa moleza aos breacos de plantão, que persistiam em usar os seus carros envenenados nas ruas e rodovias.
Neste caso o carango envenenado era uma Brasília 1970 bege, que Ceará pegara emprestado de seu pai e que deixará nas mãos confiáveis de Danilo, assim poderia beber um pouco mais e curtir a bagunça sem sentir as pontas dos dedos.
Este negocio de não sentir as pontas dos dedos era uma brincadeira ridícula que ele próprio fazia quando começava a perder o senso de direção.
Naquela noite de sexta feira, estavam os três fanfarrões, Danilo Ceará e JokeCat no bar da Belarmina, que era uma senhora gorda e alegre que mais agenciava meninas do que cuidava do bar. Portanto, jogar sinuca no bar da Belarmina era uma beleza, a bebida era barata, o jogo nunca era sério e ainda tinha as “balconetes” que se não houvesse trabalho marcado para o final da noite, normalmente saiam com os freqüentadores assíduos e conhecidos para a esbornia.
Normalmente nas noites de sexta nunca sobravam “balconetes” para uma noitada, mas, eles não haviam ido com esse intuito mesmo, apenas queriam calibrar e rachar o bico com a jogatina que não levava nunca a nada além das risadas incontidas de Ceará.
Por volta das 23:00 horas, Ceará resolveu que queria de qualquer forma a calcinha de uma das meninas. Isso! Ceará encanou que de lá não sairia sem uma calcinha. Como estavam jogando e bebendo desde as 21:00, Ceará já não sentia a ponta dos dedos a muito, e se tornara o bêbado chato, Dando muito trabalho para JokeCat e Danilo que mesmo juntos desde a chegada haviam bebido menos, ou pelo menos não haviam misturado tanto e ainda estavam com a razão em dia.
Depois de quase meia hora de aporrinhação Joke chamou Danilo num canto e sugeriu.
- Dan! Chega ai... Cara chama a Belarmina num canto e pede para ela uma calçinha velha! Tenho certeza de que ela tem um desses pára-quedas escondido por aí. Eu pago essa merda só para esse cabeçudo calar a boca.
Prontamente Danilo se propôs a sacanear o Ceará.
- Opa... É pra já.
Enquanto Ceará continuava quase aos berros sua empreitada sobre as meninas, querendo uma calcinha e incomodando a todos do bar, Danilo chamou Belarmina no cantinho do caixa e começou a barganha pelos dois metros e meio de pano de roupa intima.
- Belarmina, minha fofura! Não estamos mais agüentando essa história do caixa d’água. Tenho uma idéia, você não teria uma calcinha sua bem velhinha por ai? Pode ser alguma que é usada para limpeza...
Como Belarmina morava no fundo do bar, com certeza o plano era perfeito! Mas como se tira um doce de criança a Gorducha exclamou!
- Você ta louco? Parece que bebe mais do que já está acostumado! Imagine uma coisa dessas... Nunca! Enão me apareça mais aqui com essa história...
Como ela mandou o discurso no volume 5, todos ficaram sabendo do plano infalível, então de longe Joke sacudiu os ombros, dando a entender que “tentamos”.
A confusão das calcinhas continuou, mas pelo menos intercaladas com as histórias de “Big Fish” que Ceará tinha uma facilidade enorme em contar e encenar, até a meia noite o teatro cômico rolou bem e foi terminando com o Ceará babando e derrubando cerveja pelo chão. Neste momento Joke e Danilo resolveram que a farra deveria continuar noutro lugar e como estavam motorizados resolveram que o sol nascia melhor no mar.
- Bóra Ceará! Gritou Joke.
- Oxê, pra onde? Não saio daqui sem minha calcinha... Respondeu meio sorridente, mas com aquela expressão de breaco que revela a todos que “isso vai dar merda”.
- Bóra Cabeçudo. Vamos pra baixada te enterrar na areia. Brincou Danilo.
Quando as palavras mágicas “vamos pra baixada” foram ditas, Gisele e Fernanda duas meninas que mal falavam com eles, foram até a mesa onde estava Danilo e começaram a especular sobre a noitada.
Enquanto isso JokeCat estava tentando fazer o cachaceiro esquecer a tal calcinha, que consumirá praticamente todos os nacos de sua paciência naquela noite.
Aproveitando a moleza que as “balconetes” estavam dando Danilo, engatou a conversa e começou a contar sobre como era normalmente a sexta de baixada.
Esse fim de noite já era costumeiro, normalmente nas sextas pós boteco, eles iam até a Praia Grande em SP munidos de algumas garrafas para sentar na areia e esperar o nascer do sol, tudo muito simples e sem cerimônias. Era mais para descansar a mente de mais uma semana de trabalho do que outra coisa. Este passeio sempre era sem pretensões e baseava-se, na “tiração de sarro” alheio e comentários sobre a semana, sobre futebol, sobre as besteiras de infância, e sempre tinha história do Ceará. Depois passavam em algum lugar para tomar um café da manhã e continuar azarando as menininhas que iam passear na praia pela manhã.
Gisele que era mais saidinha que Fernanda resolveu logo e disse.
- Posso ir ou é programa só pra macho?
Claro que Danilo estampou um sorriso e revelou sem pestanejar o desejo da companhia feminina.
Fernanda fez uma careta, como se quisesse demonstrar que o programa era uma porcaria e retrucou.
- Credo! Eu não vou pra ficar com a bunda na areia até amanhã cedo sem ter o que fazer. Vou pra casa que ganho mais dormindo!
Foi quando Joke voltou com seus argumentos sobre roupas intimas esgotados, e sem muitas esperanças de arrancar Ceará de sua paranóia de fio dental, ou melhor, síndrome de Wando.
- Dan, não vai dar não hoje o seu amigo só sai daqui rebocado, acho que não vamos a lugar nenhum.
Dan olhou vagarosamente, para Gisele que se pusera em pé em sua frente, passando o olho em cada centímetro de sua vestimenta, percebendo que se tratava de uma mini saia que se entendia até quase os joelhos, não teve duvidas e indagou como uma navalhada.
- Então Gi! Você ta a fim de ir mesmo?
- Claro. Já não disse?
- Tá só que pra que nós possamos sair daqui precisamos que você faça o favor de emprestar a calcinha para aquele maluco.
Ela ficou muda por alguns segundos digerindo a idéia louca que havia acabado de presenciar e se retirou sem dizer mais nada.
JokeCat sentou-se na cadeira ao lado e começou a rir da idiotice que seu primo acabara de falar para a “balconete”.
Surpreendentemente a moça que ninguém reparou onde fora, retorna da direção dos banheiros balançando sua calcinha e chamando o Ceará como se ele fosse um cão.
- Vem Ceará. Vem que essa é sua...
Foi até a possante Brasília bege e amarrou a calcinha na antena enquanto Joke e Danilo mantinham-se estupefatos com a situação que estavam presenciando.
Levantaram abruptamente e como de costume saíram sem pagar, afinal Belarmina já estava acostumada a cobrá-los sempre no dia seguinte. Joke empurrou Ceará para o banco de trás e foi em seguida, Danilo pôs-se ao volante e Gisele sentou-se faceira ao seu lado. Saíram e enquanto Joke tentava fazer Ceará parar de pular e se debater no banco, Dan já conseguia tirar umas casquinhas de Gisele passando a mão em sua coxa esquerda a cada troca de marcha.
Na descida da serra Ceará resolveu que os motoristas de trás mereciam ver sua bunda, sentou sobre o motor da Brasília e ficava baixando as calças e esperando que os caminhoneiros buzinassem.
Para todos que se deparavam com aquilo a imagem devia ser de pesadelo, porque aquela eraia a visão mais dantesca que se pode imaginar dantesca. “Uma Brasília bege queimando óleo, uma calcinha rosa ao vento e uma bunda branca no vidro.”
Chegando à beira mar 3:00 horas da madrugada, Ceará saiu correndo do carro e assim que pisou na areia tropeçou e caiu de boca ficando imóvel, até a chegada de Joke que o puxou pela gola da camisa e colocou-o sentado em um buraco.
Danilo e Gisele nem fizeram menção de sair da Brasília, pois no caminho já haviam escrito o final daquele passeio e ao mesmo tempo que Ceará sairá correndo com Joke atrás para salva-lo de um possível afogamento na areia, Gisele pulou no colo de Danilo para retribuir as passagens de marcha da estrada.
Ceará desmontou assim que se viu sentado no buraco de areia e JokeCat pegou uma cerveja acendeu um cigarro e ficou sentado ao lado dele observando as constelações e contando em quantas ondas ouviria o próximo ronco de Ceará.
Quando os primeiros raios de sol começaram a surgir, mostrando um azul anil por entre as nuvens de chuva de outono, Joke não aguentou segurar a gargalhada ao olhar para Ceará e ver seu rosto com um cavanhaque de areia moldado que ele havia dado na chegada.
Foi quando se lembrará de ter escutado a partida da Brasília e se deu conta de que não havia ouvido a volta dela até então. Levantou calmamente se espreguiçando e caminhou até ao mar, para contemplá-lo molhando os pés e vendo o sol nascer de vez.
Voltou para chamar Ceará que já estava se sacudindo e limpando a cara arenosa e ouviu seu primeiro sussurro de ressaca.
- Puta que pariu, vocês não podem deixar eu beber desse jeito... Porra Joke você me fez comer areia?
- Cala boca Ceará, areia pra você não é nada! Você deve ter comido merda quando era pequeno.
Com seus pouco mais de um metro e meio respondeu fazendo bico de choro.
- Pô ainda sou pequeno... E cadê o carro do meu pai? Se aquele baitola sujar o banco vai ter que limpar. Eu não vou agüentar o velho me enchendo o resto do final de semana.
No mesmo segundo surge a possante fumegante de uma esquina ao longe, ainda com a calcinha rosa pendurada na antena.
Joke e Ceará foram para a beira do calçadão e Danilo encostou e em sua cara havia um misto de alegria e exaustão clássico para o acontecido. Ceará sem pestanejar foi até a antena e desamarrou a calcinha e colocou-a na cabeça dizendo.
- Bom disso eu lembro! E essa é minha...
JokeCat pulou no banco de trás da Brasília e falou.
-Bora Dan, que hoje eu vou tomar café em casa. Ah.. Bom dia Gisele.
Nem esperou a resposta encostou no vidro e dormiu.
Para todos o madrugada foi boa e revigorante.
Dan tirou o atraso conseguindo o que queria com Gisele que virou seu caso fixo por umas duas semanas.
Gisele eles até hoje não sabem direito o que queria realmente já que nunca mais se propôs a fazer esse “bate volta”.
Ceará queria a calcinha e conseguiu seu primeiro e único exemplar, além de curar a ressaca com areia bem fresca.
JokeCat queria apenas rir com os amigos e ver o sol nascer tomando uma cerveja e fumando um cigarro, para assim tentar apagar as mazelas da semana de trabalho pesado.
E assim se deu mais uma aventura sem preceitos.
Porém, cerca de duas semanas depois ao chegarmos na casa de Ceará e escutamos o pai dele aos berros.
- Seu filho de rapariga, maldito. Nunca mais empresto a merda do carro pra você fazer algazarra por ai com esses seus amigos retardados.
- Olha aqui seu corno a multa de velocidade com foto que chegou .
- Mas olha bem...
- Tá olhando?
- Então me fala quem é esse seu amigo filho da puta que ta com essa mascara de ciclope olhando para trás do carro, ele sabia que tinha radar na estrada.
- Esse ciclope corno é quem vai pagar a multa, pode me falar quem é...
Desde então, nosso amigo Ceará ganhou o titulo máster da turma de “O Ciclope da Anchieta”.
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